A expressão “coração partido” é geralmente usada de forma poética para se referir a um sentimento de tristeza profunda ou de desilusão amorosa. No entanto, a ciência mostra que, em alguns casos, emoções muito intensas podem realmente afetar o coração. Trata-se da cardiomiopatia de Takotsubo, apelidada a partir da expressão brasileira como “síndrome do coração partido”, um quadro que pode ser confundido com infarto e, em situações graves, levar à morte.
A condição ocorre quando um choque emocional, como a perda de um ente querido ou uma situação de estresse extremo, acaba por provocar uma reação exagerada do sistema nervoso. Isso leva à liberação intensa de substâncias como adrenalina e noradrenalina na corrente sanguínea, sobrecarregando o organismo. O efeito dessa descarga bioquímica é temporário, mas pode ser significativo: a ponta do ventrículo esquerdo, região responsável por bombear sangue oxigenado para o corpo, perde a capacidade de se contrair de forma adequada, ficando dilatada ou paralisada.
Sintomas assustadores
Os sintomas da síndrome podem ser assustadores. Estima-se que 75% dos pacientes apresentam dor no peito, falta de ar, palpitações e taquicardia. Embora se assemelhe a um episódio de infarto, a síndrome de Takotsubo possui características diferentes: não ocorre obstrução das artérias coronárias e a disfunção cardíaca costuma ser reversível com o passar do tempo. No entanto, em casos mais graves, pode haver choque cardiogênico, com o coração perdendo a capacidade de bombear sangue adequadamente para o corpo, o que pode gerar graves sequelas nos pacientes e até mesmo levar a quadros fatais.
Dados recentes ajudam a dimensionar o problema. Um estudo da Universidade do Arizona que analisou cerca de 200 mil pacientes nos Estados Unidos, entre 2016 e 2020, constatou um aumento nos casos da síndrome. Ela é mais frequente em mulheres com idade entre 50 e 70 anos, mas a taxa de mortalidade verificada entre os homens foi mais de 100% superior (11,2%), em comparação com a da população feminina (5,5%). No geral, a taxa de óbitos chegou a 6,5%. Isso mostra que, embora a síndrome não seja tão letal quanto um infarto, pessoas que passam por choques emocionais extremos devem ser monitoradas com cautela.
Tratamento exige cuidados físicos e mentais
Embora a síndrome do coração partido seja um quadro majoritariamente passageiro, estudos mostram que alguns pacientes podem apresentar, ao longo do tempo, novos problemas cardiovasculares ou até um novo episódio da síndrome. Estima-se que, em cada oito pessoas que já passaram pelo quadro, pelo menos uma pode ter outra crise nos cinco anos seguintes, geralmente associada a situações de estresse. Por isso, o acompanhamento médico contínuo e o tratamento adequado são fundamentais para a proteção do paciente.
O tratamento clínico busca dar suporte ao funcionamento cardíaco até que o órgão retome seu funcionamento normal, o que geralmente se dá em semanas ou meses. Mas, além da dimensão medicinal, é fundamental cuidar do aspecto emocional. A psicoterapia e, em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico, são aliados importantes para entender como o estresse foi desencadeado e quais as melhores estratégias para preveni-lo.
A síndrome do coração partido mostra, de forma concreta, que corpo e mente são inseparáveis. Cuidar da saúde emocional é também cuidar do coração. E nunca é tarde para se buscar um equilíbrio que permita vivenciar as emoções de forma controlada, sem que isso envolva uma ameaça à saúde e à própria vida.