Vício Perigoso

Bets: o custo invisível das apostas online

29 de junho de 2026

Enquanto as casas de apostas ganham cada vez mais espaço nos principais campeonatos esportivos do Brasil e do mundo, inclusive estampando uniformes e transmissões da Copa do Mundo da FIFA, cresce também a preocupação com os impactos dessa atividade na saúde e na economia dos brasileiros. Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), com informações de 2023, indicam que quase 11 milhões de brasileiros com 14 anos de idade ou mais apresentam comportamento de jogo considerado arriscado ou problemático. Atualmente, a dependência relacionada às apostas aparece atrás apenas do álcool e do tabaco entre as adicções mais frequentes.

O impacto também já é sentido no bolso do brasileiro. Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que, desde a regulamentação das apostas em 2023, os gastos com bets no país saltaram de cerca de R$ 4 bilhões para R$ 29 bilhões por mês. Esse aumento expressivo tem impacto direto em outros setores da economia do país: segundo a entidade, entre janeiro de 2023 e março de 2026, aproximadamente R$ 143 bilhões deixaram de circular no comércio varejista brasileiro e foram direcionados às plataformas de apostas. Para se ter uma ideia da dimensão desse montante, ele equivale ao faturamento somado dos períodos de Natal de 2024 e 2025, as datas mais importantes para o varejo nacional.

A preocupação também aparece na opinião pública. A pesquisa de opinião CNT/MDA, conduzida pela Confederação do Transporte, apontou que 71,9% dos brasileiros consideram as bets um grande problema para a sociedade, enquanto 77,3% acreditam que elas prejudicam as famílias. Para 38,4%, a medida mais urgente para resolução da questão seria radical: a proibição das apostas online.

Por que as bets viciam?

Especialistas explicam que as plataformas utilizam mecanismos que estimulam um comportamento compulsivo, assim como todos os jogos de azar – oferecendo recompensas rápidas, bônus e a expectativa constante de recuperação das perdas. O cérebro passa a associar a aposta à sensação de prazer e recompensa, criando um ciclo difícil de interromper.

Entre os principais sinais de alerta para uma relação perigosa com as bets estão a necessidade de apostar valores cada vez maiores, tentativas frustradas de parar, irritação quando não é possível jogar, mentiras para familiares sobre gastos, endividamento e uso de dinheiro destinado a despesas essenciais para realizar apostas.

Onde buscar ajuda

Desde março deste ano, o Ministério da Saúde oferece teleatendimento especializado em saúde mental para pessoas com compulsão por apostas, além de familiares e rede de apoio. A expectativa é de realizar até 100 mil atendimentos mensais, conforme a demanda. Para utilizar o serviço, basta baixar o aplicativo “Meu SUS Digital”, disponível gratuitamente para Android, iOS ou acessar pela versão web (https://meususdigital.saude.gov.br/), fazer login com a conta gov.br e acessar a opção “Problemas com jogos de apostas?” dentro da área de miniaplicativos.

Outra ferramenta disponível é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão (gov.br/autoexclusaoapostas), que permite ao próprio apostador bloquear o acesso às casas de apostas autorizadas, impedir novos cadastros com seu CPF e suspender o recebimento de publicidade relacionada ao tema. O bloqueio pode ser definido por prazo determinado ou indeterminado e o cadastro é realizado por meio da conta gov.br. Segundo dados do governo federal, centenas de milhares de brasileiros já recorreram ao mecanismo como forma de proteção e tratamento.

Reconhecer os sinais precocemente e procurar ajuda especializada são passos fundamentais para evitar que uma aposta ocasional se transforme em um problema capaz de comprometer a saúde, as finanças e os relacionamentos familiares.