Aranha do litoral paulista pode revolucionar tratamento do câncer

11 de março de 2024

Há aproximadamente duas décadas, cientistas brasileiros do renomado Hospital Israelita Albert Einstein e do prestigiado Instituto Butantan, ambos em São Paulo, embarcaram em uma jornada de pesquisa pioneira, que apenas agora, em 2024, teve seus primeiros resultados concretizados – e promete nada menos do que transformar a abordagem no tratamento do câncer. O inusitado, neste caso, é a origem da matéria prima utilizada para a formulação do fármaco pesquisado, derivado do veneno de uma aranha caranguejeira brasileira, a Vitalius wacketi, que habita o litoral paulista. Em testes iniciais, a substância se mostrou promissora no combate à leucemia, um tipo de câncer que afeta as células sanguíneas.

Não se trata, no entanto, de produzir um medicamento oncológico diretamente do veneno, mas sim de uma molécula em particular que o constitui, uma poliamina. Para isso, a substância é extraída do veneno da aranha caranguejeira e, em seguida, sintetizada em laboratório no Instituto Butantan. Posteriormente, esse material também é submetido a um processo de purificação no Hospital Albert Einstein, de forma a remover qualquer potencial contaminante e a aprimorar sua eficácia. Nos testes iniciais, essa substância revelou a capacidade de eliminar células leucêmicas, inclusive aquelas resistentes aos tratamentos quimioterápicos.

Segundo os pesquisadores responsáveis pela descoberta, o diferencial impactante desse tratamento reside na forma como as células cancerosas são eliminadas. Ao contrário dos métodos convencionais, como a quimioterapia, a poliamina induz à morte programada das células tumorais, conhecida como apoptose, evitando assim a necrose dessas células e suas consequências inflamatórias. Essa característica torna o tratamento promissor e realmente inovador, na medida em que possibilita uma abordagem mais precisa e menos agressiva do que aquela oferecida pelos tratamentos atualmente existentes: “A morte por necrose é uma morte não programada na qual a célula colapsa, levando a um estado inflamatório importante. Já na apoptose, a célula tumoral sinaliza ao sistema imune que está morrendo, para que ele remova posteriormente os fragmentos celulares”, explica Thomaz Rocha e Silva, pesquisador do Einstein.

Pesquisas precisam de financiamento para avançar

Apesar dos resultados favoráveis, é crucial destacar que os estudos ainda se encontram nos estágios iniciais. A substância precisa passar por extensivos testes de avaliação de sua segurança e eficácia antes que se possa avançar para a realização de testes clínicos em seres humanos. Os pesquisadores planejam ampliar os experimentos, inclusive com a realização de testes em células de câncer de pulmão e de ossos, como modo de compreender melhor a abrangência e a efetividade dessa descoberta. Além disso, serão conduzidos estudos em células humanas saudáveis para garantir que a poliamina seja seletiva, prejudicando apenas as células cancerosas, sem apresentar toxicidade ao organismo como um todo.

Com a perspectiva de a pesquisa progredir para uma próxima fase, as instituições envolvidas buscam agora firmar parcerias com a indústria farmacêutica, visando à obtenção dos investimentos necessários. O sucesso dessa cooperação deve acelerar o desenvolvimento de um tratamento que se mostra inovador, destacando o potencial da produção científica nacional e sua contribuição efetiva para a busca global por soluções eficazes no combate ao câncer.

Por ora, resta torcer para que essa pesquisa, tão importante, consolide os melhores resultados, reafirmando a relevância do papel da ciência brasileira no cenário mundial e trazendo conforto e esperança para milhões de pacientes.