Autonomia: o maior desejo da maturidade
26 de fevereiro de 2024
“Liberdade é a melhor rima para felicidade”. Muito mais que uma frase de efeito, a colocação que a antropóloga Mirian Goldenberg (foto) ouviu de uma médica de 65 anos resume bem os relatos de homens e mulheres 60 + que ela registrou ao longo de mais de 30 anos de pesquisa.
Autora do livro "A invenção de uma bela velhice" (ed. Record, 160 págs. 2021), entre outros, Mirian aprofundou esse conceito. Junto com a amizade, aponta a autonomia como o maior desejo da velhice:
— Autonomia é maior do que liberdade, é a capacidade de ser o protagonista da própria vida.
Como autonomia entende-se ter saúde física, mental e financeira para tomar as próprias decisões, administrar a casa, o dinheiro, o tempo e as amizades — importante: sem a interferência dos filhos.
— Com o intuito de superproteger, eles começam a fazer coisas que seus pais e avós ainda podem e querem fazer e roubam a autonomia do velho — pontua Mirian.
Não por maldade. A antropóloga acredita que as intervenções podem ser expressão de cuidado e afeto:
— Mas cerceiam a liberdade de pessoas lúcidas, ativas e saudáveis, que ainda são capazes de comandar a própria vida.
Por exemplo, ela toma uma corriqueira ida ao supermercado.
— Os mais velhos adoram esse programa. Não só para fazer compras, mas para se distrair, encontrar os amigos. Aí, preocupados com a segurança e a saúde dos pais, os filhos começam a restringir e controlar essas idas e os velhos vão se isolando dentro de casa. Sentindo-se invisíveis, descartáveis, inválidos — diz a antropóloga, que entende a perda da autonomia como "uma espécie de morte simbólica".
Da seção "Longevidade" de O Globo, em 22/02/2024
