Entrevista
A magnífica história de um belo desafio: a criação da urna eletrônica brasileira
19 de outubro de 2026
Nos idos de 1995, uma comissão formada por doze brasileiros, integrantes da nata da tecnologia nacional, estava diante de um grande desafio: criar a urna eletrônica para uso nas eleições em todo o país. Era a Comissão Técnica do TSE – Tribunal Superior Eleitoral, à época presidido pelo ministro Carlos Velloso.
Presidia essa Comissão Técnica nosso colega Paulo César Bhering Camarão, hoje com 84 anos, funcionário do Serpro por 27 anos, sócio da ASPAS "desde a fundação", como destaca. Em entrevista para o Boletim ASPAS, Paulo César Camarão nos conta um pouco sobre como foi a jornada que possibilitou ao Brasil informatizar o processo de votação e apuração dos votos, utilizando urnas pequenas e leves, passíveis de serem transportadas com facilidade e em quantidade para os mais remotos recantos do país.
"Solução tupiniquim"
"Desde 1970 os Estados Unidos utilizavam urnas eletrônicas, mas lá o processo não é unificado, como no Brasil. Lá cada condado define suas regras; uns usavam urnas eletrônicas, que eram enormes e pareciam uma geladeira, diga-se de passagem, enquanto em outros condados o voto ainda era no papel. Constatamos que aquele modelo não servia para nós. Partimos então para a nossa "solução tupiniquim", como definiu o ministro Carlos Velloso" – conta Paulo César.
"Na Comissão Técnica que eu presidi, estavam um coordenador técnico, também do Serpro, Luiz Antônio Raeder, e membros de centros de excelência como o INPE, o ITA, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD) da Telebrás e mais um especialista em T.I. de cada Força Armada", relata. Essa equipe desenhou o projeto da urna que, de 1996 para cá, simplesmente eliminou fraudes, tanto na recepção do voto quanto na sua contabilização. "A urna eletrônica completou 30 anos em maio de 2026. Ela foi implantada a primeira vez, como teste, em um terço das seções nas eleições municipais de 1996, totalizando 77 mil urnas. Hoje o país tem 430 mil seções eleitorais e cerca de 500 mil urnas eletrônicas para atender aos eleitores", comemora.
Premissas da urna
Antes do trabalho técnico, houve uma comissão anterior para estabelecer as premissas da urna. Nessa comissão, Paulo César Camarão foi o relator, responsável por sistematizar os debates. Essas premissas foram fundamentais para o projeto. "A primeira premissa foi de que o voto eletrônico deveria eliminar – não diminuir, eliminar – qualquer fraude no registro do voto e na contagem do resultado", destaca.
Essa comissão funcionou entre abril e julho de 1995 e estabeleceu objetivos como: o voto deveria ser numérico pra evitar erros e dificuldades; a urna deveria funcionar também por bateria, para não depender apenas da energia elétrica; o eleitor deveria ser informado com o nome e foto do candidato escolhido antes de confirmar o voto; e a urna deveria funcionar totalmente ’stand-alone’, ou seja, fora de rede para não ficar exposta; entre outras premissas.
Urna totalmente auditável
Paulo César Camarão ficou por 18 anos cedido pelo Serpro ao TSE, ocupando cargos como Secretário de T.I., Secretário de Planejamento, Secretário de Projetos Especiais e Coordenador Geral de Planejamento do Tribunal. "A premissa antifraude vem funcionando até hoje. Nesses 30 anos o TSE jamais deixou de atender a qualquer pedido de auditoria e nunca foi registrada qualquer fraude", revela.
Esse desempenho não ocorre à toa. A urna sofre auditoria contínua, "antes, durante e após o processo eleitoral", conta. "O código fonte está à disposição, não há nenhuma ’caixa-preta’", continua. Regularmente a urna passa por testes de invasão ao sistema eleitoral. "Universidades enviam seus melhores técnicos para tentar invadir o hardware e o software da urna durante sete dias e até hoje não houve quebra do sistema", afirma. Além disso, o sistema conta com a assinatura digital individualizada dos partidos políticos e instituições como Ministério Público, OAB e outros. "Há também, em toda eleição, uma votação simulada onde urnas são sorteadas em todo o território nacional e passam por auditoria privada no dia da eleição", reforça Paulo César.
"A cada eleição nossa urna eletrônica é melhorada. Só no TSE são 100 analistas atuando, fora as equipes de T.I. nos estados. Não faltam recursos para o exercício e o aprimoramento da nossa democracia eleitoral; nem técnicos, nem humanos, nem financeiros".
Pai da urna eletrônica
O Boletim ASPAS pergunta a Paulo César Bhering Camarão se podemos dizer que ele é o pai da urna eletrônica brasileira. Modesto, responde: "Não. Foram vários pais, a começar pelo ministro Carlos Velloso, que teve a vontade política de implantar essa novidade em 1995, quando assumiu o TSE". Mas o fato é que a primeira pessoa, o primeiro analista de sistemas, que Carlos Velloso sondou, ainda em 1994, e convidou no início de 1995 para a missão foi Paulo César Bhering Camarão, nosso colega do Serpro.
Paulo César entrou para o Serpro na primeira turma de analistas de 1971, ocupou chefias de Setor e de Seção, foi Coordenador e Gerente, chegando na empresa a Superintendente de Negócios do Ministério da Fazenda. Antes do Serpro, já havia sido pesquisador do Instituto de Engenharia Nuclear – IEN, da Comissão Nacional de Engenharia Nuclear (CNEN). Sua história e sua contribuição para a democracia brasileira muito nos orgulham. E à ASPAS, em especial, por tê-lo como associado.
